"Não dá mais para os racistas continuarem ferindo as pessoas pretas. Não dá mais para ficarmos calados diante disso. As pessoas precisam entender que o que elas postam na Internet pode trazer consequências". É com esta análise que a jovem moradora de Bauru Naiara Tamires dos Santos, 24 anos, comemora a identificação, após trabalho de investigação realizado pela Polícia Civil, do internauta que fez comentários racistas contra ela e outras pessoas em uma página no Facebook.

O indiciado, de 21 anos, mora no município de Igarassu, em Pernambuco, e responderá pelo crime de injúria racial. Ele confessou ter publicado as ofensas, alegando que apenas teve a intenção de "brincar". Disse, ainda, que não imaginava que seria identificado, conforme consta no registro de seu interrogatório.

O crime foi cometido em 23 de junho, em uma página do Facebook voltada à valorização da cultura e da beleza negra. Em um post de uma foto de uma mulher negra com cabelos volumosos, o jovem, que não teve a identidade revelada, usou um perfil com nome falso e rosto escondido atrás de um aparelho celular para publicar termos ofensivos e preconceituosos.

"É uma página que estimula justamente a construção da autoestima das pessoas pretas. Várias pessoas começaram a questioná-lo e ele não parava. Foram comentários muito pesados", descreve Naiara.

QUEBRA DE SIGILO

Além de dizer que os cabelos da mulher que aparecia na foto se assemelhavam a "palha queimada", ele se dirigiu à Naiara com uma sequência de emojis (figuras) de macaco, como forma de ofendê-la. E, quando alertado por algumas pessoas de que ele poderia responder criminalmente pelos comentários, chamou o grupo de "bando de Mussum", "filhas de pedreiro africano" e "desgraças pretas".

Apesar de ter sido desencorajada algumas vezes por conhecidos que acreditavam que o crime ficaria impune, Naiara decidiu procurar a Polícia Civil, que registrou boletim de ocorrência e deu início às investigações. Segundo o delegado Eduardo Herrera, coordenador do Setor de Investigações Gerais (SIG), órgão ligado à Central de Polícia Judiciária (CPJ) de Bauru, foi requisitada a quebra de sigilo eletrônico do perfil do Facebook e, a partir do rastreamento do número de telefone, e-mail e endereço de IP (Protocolo de Internet) utilizados para criação da conta, o autor foi identificado.

"Fizemos, então, contato com a Delegacia de Polícia de Igarassu, em Pernambuco, onde o envolvido foi ouvido e confessou ter praticado a ofensa e conduta racista, justificando ter agido por brincadeira. Tal conduta, porém, é absolutamente reprovável e incompatível com a sistemática jurídica e social", observa Herrera.

EXEMPLO

De acordo com o delegado, o autor não tinha antecedentes criminais e, durante as investigações, não foram detectadas condutas anteriores de racismo praticadas por dele por meio do mesmo perfil do Facebook. O jovem responderá judicialmente por injúria racial e, se condenado, poderá receber pena de reclusão de um a três anos, que, normalmente, é convertida em medidas cautelares ou prestação de serviços à comunidade.

Naiara comemorou o desfecho. "Fiz o que eu achei certo. E ter esse resultado é uma forma de dar o exemplo, de estimular mais pessoas a denunciar e de fazer os racistas saberem que podem ser punidos se destilarem ódio na Internet", alerta.

 

Fonte: JCnet

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